De que forma a crescente valorização da música latina reconfigura a percepção da latinidade e da diversidade cultural na identidade porto-alegrense, em contraste com o histórico de invisibilização dessa dimensão na construção da cultura gaúcha?
Antes de medir percepções, mapeamos o terreno conceitual e cultural que cerca a ideia de ser latino, e por que o gaúcho costuma ficar de fora dessa conversa.
Termo ligado à América Latina e às línguas de origem do latim. Por geografia e por idioma, o Brasil é latino.
Relacionado à herança cultural espanhola. Internacionalmente, "latino" costuma colar em países hispânicos, e o Brasil raramente entra na conta.
Fonte: National Geographic Brasil, “Latino, hispânico: brasileiros são latinos também”
A imensa maioria se identifica como brasileira, e mais gente se vê como "cidadã do mundo" do que como latino-americana. O resultado é um vínculo identitário frágil com a própria região, pano de fundo para tudo o que a pesquisa investiga.
Fonte: BBC Brasil
Impulsionada pelo streaming e pela economia criativa, a América Latina exporta som, estética e orgulho, e o Brasil está nesse mapa.
O streaming virou o principal motor de crescimento da música latino-americana, levando artistas e ritmos ao topo das plataformas mundiais.
Orgulho identitário crescente entre jovens latinos, com presença marcante em moda, design, gastronomia e tecnologia.
Cores vibrantes, tropicalidade e estética urbana: referências brasileiras ganham reconhecimento no cenário internacional.
Fonte: Gente · Globo, “Veias abertas: borogodó e ginga, está na moda ser latino”
A forte influência da imigração europeia ajudou a construir uma identidade regional própria e, no caminho, pode ter ofuscado a latinidade presente na formação cultural do estado.
O pampa carrega raízes profundas compartilhadas com Argentina e Uruguai, que reaparecem inclusive em manifestações de defesa da soberania latino-americana em Porto Alegre.
No primeiro semestre de 2026, acadêmicos da Unisinos Porto Alegre desenvolveram esta pesquisa na disciplina de Pesquisa Mercadológica para a Indústria Criativa, ministrada pela Profa. Dra. Taís Flores da Motta. O tema nasceu de um debate em sala sobre assuntos atuais; a turma foi dividida em grupos que aplicaram a mesma pesquisa, garantindo uma amostra robusta e representativa.
Levantamento de fontes e dados sobre latinidade, música latina e a formação cultural do Rio Grande do Sul.
Formulário online (Google Forms) com moradores de Porto Alegre, medindo descoberta, consumo e percepção identitária.
Quatro grupos aprofundaram recortes do tema por grupos de discussão na web e entrevistas em profundidade, explorando identidade, cena noturna, memória afetiva e digitalização.
já descobriram música latina pelas redes sociais
já adicionaram uma música latina à playlist
veem a cultura gaúcha como parte da latino-americana
passaram a ouvir música latina por influência de amigos
percebem mais valorização da música latina em POA do que antes
Cada grupo se aprofundou em um aspecto ligado ao objetivo central, entre grupos de discussão na web e entrevistas em profundidade.
Um paradoxo central: todos já foram impactados por alguma trend de música latina, mas ninguém se identifica espontaneamente como "latino": 5 se dizem gaúchos, 4 brasileiros. A música funciona menos como pertencimento e mais como ponto de contato: uma "porta entreaberta" empurrada pelo algoritmo, ainda não cruzada no plano identitário.
A narrativa gaúcha supervaloriza raízes europeias e silencia a conexão com Argentina e Uruguai. Na cena noturna, a música latina cresce, mas segue nichada em bairros como Cidade Baixa e Quarto Distrito. A geração atual rompe barreiras que os pais mantêm, e os participantes defenderam festivais na Orla e editais para conectar POA ao Mercosul.
Da "Waka Waka" da Copa de 2010 a RBD na infância, a memória afetiva ancora o gênero. Persiste o estigma do reggaeton como "cafona", percepção que o streaming vem mudando. A conclusão: quando existe, a identificação com a latinidade é construída de forma individual e deliberada, não promovida pelo ambiente cultural da cidade.
Algoritmos de TikTok, Instagram e Spotify agem como "gatilhos" de conversão: quem evitava o estilo passou a montar playlists próprias após exposição contínua. A identificação com o funk brasileiro e a energia do reggaeton puxa a aceitação. "Despacito" (2017), Bad Bunny e Karol G aparecem como pontos de virada da percepção no Brasil.